Agarrei a fruta e, assim que comecei a
fugir, ouvi-a dizer debilmente, "Virei vê-lo amanhã".
Voltei para o mesmo local, na cerca, na
mesma hora, todos os dias. Ela estava sempre lá, com algo para eu comer - um
naco de pão ou, melhor ainda, uma maçã.
Nós não ousávamos falar ou demorarmos.
Sermos pegos significaria morte para nós dois.
Não sabia nada sobre ela. Apenas um tipo
de menina de fazenda, e que entendia Polonês.
Qual era o seu nome? Por que ela estava
arriscando sua vida por mim?
A esperança estava naquele pequeno
suprimento, e essa menina, do outro lado da cerca,
trouxe-me um pouco, como que me nutrindo
dessa forma, tal como o pão e as maçãs.
Cerca de sete meses depois, meus irmãos e
eu fomos colocados em um abarrotado vagão de carvão e enviados para o campo de
Theresiensatdt, na Tchecoeslováquia.
"Não volte", eu disse para a menina
naquele dia. "Estamos partindo".
Voltei-me em direção às barracas e não
olhei para trás, nem mesmo disse adeus
para a pequena menina, cujo nome eu nunca
aprendi - menina das maçãs.
Permanecemos em Theresienstadt por três
meses.
A guerra estava diminuindo e as forças
aliadas se aproximando, muito embora meu destino parecesse estar selado. No dia
10 de maio de 1945, eu estava escalado para morrer na câmara de gás, às 10:00
horas. No silencioso crepúsculo, tentei me preparar. Tantas vezes a morte
pareceu pronta para me achar, mas de alguma forma eu havia sobrevivido. Agora,
tudo estava acabado.
Pensei nos meus pais. Ao menos, nós
estaremos nos reunindo.
Mas, às 08:00 horas ocorreu uma comoção.
Ouvi gritos, e vi pessoas correndo em
todas as direções através do campo.
Juntei-me aos meus irmãos.
Tropas russas haviam liberado o campo! Os
portões foram abertos.
Todos estavam correndo, então eu corri
também.
Surpreendentemente, todos os meus irmãos
haviam sobrevivido.
Não tenho certeza como, mas sabia que
aquela menina com as maçãs tinha sido a chave da minha sobrevivência. Quando o
mal parecia triunfante, a bondade de uma pessoa salvara a minha vida,
me dera esperança em um lugar onde ela
não existia.
Minha mãe havia prometido enviar-me um
anjo, e o anjo apareceu.
Eventualmente, encaminhei-me à
Inglaterra, onde fui assistido pela Caridade Judaica.
Fui colocado em um abrigo com outros
meninos que sobreviveram ao Holocausto e treinado em Eletrônica. Depois fui para
os Estados Unidos, para onde meu irmão Sam já havia se mudado.
Servi no Exército durante a Guerra da
Coréia, e retornei a Nova Iorque, após dois anos.
Por volta de agosto de
1957, abri minha própria loja de consertos eletrônicos.
Estava começando a
estabelecer-me.
Um dia, meu amigo Sid, que eu conhecia da
Inglaterra, me telefonou.
"Tenho um encontro. Ela tem uma amiga
polonesa. Vamos sair juntos!".
Um encontro às cegas? Não, isso não era
para mim!
Mas Sid continuou insistindo e, poucos
dias depois, nos dirigimos ao Bronx para buscar a pessoa
com quem marcara encontro e a sua amiga
Roma. Tenho que admitir: para um encontro às cegas, não foi tão ruim. Roma era
enfermeira em um hospital do Bronx. Era gentil e esperta. Bonita, também, com
cabelos castanhos cacheados e olhos verdes amendoados que faiscavam com vida.
Nós quatro fomos até Coney Island. Roma
era uma pessoa com quem era fácil falar e ótima companhia. Descobri que ela era
igualmente cautelosa com encontros às cegas.
Nós dois estávamos apenas fazendo um
favor aos nossos amigos. Demos um passeio na beira da praia, gozando a brisa
salgada do Atlântico e depois jantamos perto da margem. Não poderia me lembrar
de ter tido momentos melhores.
Voltamos ao carro do Sid, com Roma e eu
dividindo o assento trazeiro.
Como judeus europeus que haviam
sobrevivido à guerra, sabíamos que muita coisa deixou de ser dita entre nós. Ela
puxou o assunto, perguntando delicadamente:
"Onde você estava durante a guerra?"
"Nos campos de concentração", eu disse.
As terríveis memórias ainda vívidas, a
irreparável perda. Tentei esquecer.
Mas jamais se pode esquecer.
Ela concordou, dizendo: "Minha família
se escondeu em uma fazenda na Alemanha,
não longe de Berlim . Meu pai conhecia um
padre, e ele nos deu papéis arianos."
Imaginei como ela deve ter sofrido
também, tendo o medo como constante companhia.
Mesmo assim, aqui estávamos, ambos
sobreviventes, em um mundo novo.
"Havia um campo perto da fazenda", Roma
continuou.
"Eu via um menino lá e lhe jogava maçãs
todos os dias."
Que extraordinária coincidência, que ela
tivesse ajudado algum outro menino.
"Como ele era?", perguntei.
"Ele era alto, magro e faminto. Devo
tê-lo visto todos os dias, durante seis meses."
Meu coração estava aos pulos! Não podia
acreditar! Isso não podia ser!
"Ele lhe disse, um dia, para você não
voltar, por que ele estava indo embora de Schlieben?".
Roma me olhou estupefata. "Sim!".
"Era eu!".
Eu estava para explodir de alegria e
susto, inundado de emoções.
Não podia acreditar! Meu anjo!
"Não vou deixar você partir", disse a
Roma.
E, na trazeira do carro, nesse encontro
às cegas, pedi-a em casamento. Não queria esperar.
"Você está louco!", ela disse.
Mas convidou-me para conhecer seus pais
no jantar do Shabbat da semana seguinte.
Havia tanto que eu ansiava descobrir
sobre Roma, mas as coisas mais importantes eu sempre soube: sua firmeza, sua
bondade. Por muitos meses, nas piores circunstâncias, ela veio até a cerca
e me trouxe esperança. Não que eu a
tivesse encontrado de novo, eu jamais a havia deixado partir.
Naquele dia, ela disse sim. E eu mantive
a minha palavra.
Após quase 50 anos de casamento, dois
filhos e três netos, eu jamais a deixara partir.”
Herman Rosenblat - Miami Beach, Florida
***
Esta é uma história verdadeira e você
pode descobrir mais sobre ele no Google.
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